01 · 07

ADOLESCENTES VERSUS OBSOLESCENTES?

Nos esforçamos por tantos anos em manter nosso foco que agora estamos estranhando o modo multi-tarefa em que nossos jovens vivem, e já começamos a falar em mal-funcionamento das novas gerações.

 

Durante um tempo, as pessoas mais velhas se referiram à informática (lembram deste termo?) como algo importante que merecia ser aprendido. Hoje apontam para os jovens e dizem que há algo errado numa geração sem foco, dominada pela tecnologia digital, com um enorme déficit de atenção e pouca profundidade temática. Nossos filhos não estão se encaixando em nossas projeções e por isso estamos pensando que pode haver algo de errado com eles. 

 

Creio que estamos chegando em um ponto importante da história do uso da tecnologia, no qual os jovens conectados passam a disputar mercado com seus preceptores e por isso passam a ser repelidos com uma série de rótulos.

 

Por que o abismo tecno-relacional entre as gerações vem se acentuando? Porque para muitos de nós, com mais de quarenta anos, a intensidade e variedade dos objetos de linguagem já atingem uma velocidade quase insuportável.

 

Quando o pesquisador Douglas Engelbart apresentou nos anos 70 a alternância de modos, e nos tirou das telas verde-escura para uma interface colorida repleta de ícones e com janelas simultâneas, a roda da história avançou mais um pouco e somente hoje podemos sentir quanto o mundo mudou.

 

Os jovens já estão completamente adaptados à vertigem da multi-tarefa, mas a velha-guarda do processador de texto ainda insiste que foco e concentração são os únicos modos válidos de aprender e trabalhar. O que para nós é uma super-exposição de estímulos, para os sentidos dos jovens é apenas o meio em que nasceram, cresceram e aprenderam a viver.

 

Entretanto hoje não compreendemos como podem trafegar de um assunto ao outro antes mesmo de concluir o entendimento do anterior. Não os acompanhamos nos mergulhos de hipertexto e ainda somos teimosos, sempre dando mais valor às nossas narrativas lineares. 

 

No fundo ainda pensamos que para uma aprender uma coisa é preciso aprender uma outra primeiro, e que há uma ordem certa para isto. Em nossa percepção não estão aprendendo nada porque não mergulham prá valer nos conteúdos, e são superficiais porque trocam de assunto sem um motivo válido para nossos critérios.

 

Pensamos que eles mudam todo o tempo porque se viciaram nisto, e no fundo culpamos o dispositivo que originou toda essa confusão, o bisavô da navegação de conteúdos, o controle-remoto da televisão!

 

As gerações anteriores fizeram um esforço enorme para se adaptar à dura realidade da era industrial. Tivemos que abandonar nosso fluxo espontâneo de comer, dormir e amar a qualquer hora para entrarmos no sincronismo do apito de fábrica e do relógio de ponto. Mas nossos corações e mentes teimavam em derivar em desejos e interesses momentâneos, então aprendemos a nos esforçar o tempo todo para manter a atenção em apenas um assunto de cada vez e vivemos tentando manter o "foco".

 

Acontece que a alternância de assuntos está saltando para fora do computador e invadindo nossas vidas. A televisão ficou mais rápida, as revistas repletas de notícias, os jornais com textos cada vez menores e as ruas repletas de anúncios e sinalizações digitais. Pelo menos duas gerações cresceram neste meio, jovens que mantém sete, dez janelas abertas e ainda falam ao telefone enquanto comem um lanche, tudo isso diante da televisão.

 

Nossos jovens tem acesso imediato a muitas fontes de conhecimento, mesmo com seus professores condenando o google e a wikipedia, mas ainda esperamos que eles usem a memória, compreendam ou decorem informações fundamentais, e que saibam caligrafia!

 

E se o modo como nós aprendemos tudo até agora na escola, memorizando a tabela periódica dos elementos, equações matemáticas e rios do amazonas, estivesse mesmo muito errado? Fomos diplomados como ótimos alunos e alguém aí se lembra de alguma destas coisas?

 

Nossos professores eram bancos de memória ambulantes, repletos de citações e exemplos. Poucos mestres tinham a capacidade de se envolver, se relacionar com os alunos e nos levar a uma experiência única de sabedoria. A maioria dos professores era entregador de verbetes, fiscal de apostila ou zelador de livro didático.

 

Cultivamos um saber enciclopédico durante séculos e talvez esta seja a primeira geração a se livrar deste fardo, e por isso muitos os chamam de ignorantes. Nunca imaginamos que eles teriam um tipo de sabedoria e conhecimento tão diferente do nosso que nos pareceria um certo tipo de ignorância!

 

Arrisco dizer que talvez os jovens não aprofundem seus conhecimentos porque estão buscando em primeiro lugar os índices. Não estão aprendendo conteúdos, estão capturando mapas de localização do conhecimento. 

 

Na lógica destas gerações é possível organizar uma lista de assuntos sobre um tema que ainda não conhecem. Para nós mais velhos isto é impensável, pois nossos sumários sempre apontam para textos que lemos, imagens que vimos e filmes que assistimos. Nós dependíamos da memória, eles dependem das buscas. Nós resumíamos textos, eles condensam listas, buscam por categorias, tipos, formatos, datas, assuntos, temas, palavras-chave e tags. 

 

Não aceitamos nem o modo como fazem a gestão de suas amizades, e os acusamos de manterem fazendas de falsos amigos representados por carinhas de facebook que só dizem: husahuauahuhuasuahuhuhsuhaua.

 

Acho que estamos perdendo o bonde da história, ou melhor, o trem-bala. Não conseguimos nos comunicar com nossos filhos, estamos cada vez mais preocupados com nossos jovens funcionários da geração Y, e cada vez que alguém metralha uma escola, tenta fabricar uma bomba em casa ou sai marchando em multidão pelas ruas, culpamos a internet.

 

Se não tornarmos mais flexíveis nossas premissas e freqüentarmos um pouco mais os espaços multi-tarefa por onde os jovens fluem, as novas pontes entre nós nunca irão aparecer.

 

Penso que cada um tem exatamente aquilo que precisa para viver em seu tempo, a seu modo. O que precisamos é não esquecer que, mesmo vivendo em fluxos distintos, habitamos os mesmos espaços, estamos ligados uns aos outros e precisamos cultivar o encontro humano amoroso entre nós constantemente, inclusive dentro das possibilidades não-presenciais, usando o mural de Facebook, por exemplo.

 

Considerando que o mundo está cada vez mais multicultural, multidiversificado e multitarefa, mesmo sendo mais velhos é bom encontrarmos nosso lugar já que, com o aumento da longevidade, ainda vamos viver um bom tempo por aqui.

 

Meus amigos, ou melhor, meus velhos amigos, quando a maturidade bloqueia a transformação, surge a velhice. Um velho que transforma é sempre mais jovem que um adolescente que conserva. Velhice não precisa ser obsolescência, pode ser renovação. Não precisamos funcionar como os jovens, mas precisamos saber que o nosso modo não é mais o único.

 

01 · 07

EXISTE ALGUÉM DO OUTRO LADO DA SUA REDE SOCIAL?

Muitas interações e pouco relacionamento. Em uma cultura orientada ao individualismo todos querem interagir sobre os assuntos que acham interessantes, e quase ninguém tem tempo ou ouvidos para escutar o que se passa com a pessoa do outro lado da rede.

Focalizando melhor a questão pergunto: existe mais alguém em seu mundo além de você mesmo? Se houver alguém em sua vida que seja tão importante para você como você mesmo, então não vives em um planeta solitário.

Quantas pessoas ao seu redor influenciam diretamente sua vida a ponto de você promover mudanças em seus hábitos e rotinas para seguir estando ao lado delas, ou para que elas vivam em um bem-estar? Se para você existem alguns assim, pode ter certeza que estes são os únicos outros habitantes de seu mundo.

Cada um de nós vive um conjunto de opiniões e preferências que nos define como pessoa, e aí estão as fronteiras invisíveis do planeta pessoal de cada um.

Vivemos nestes mundinhos particulares e geralmente deixamos passar pela alfândega apenas pessoas que nos ofereçam alguma afinidade, vantagem ou benefício.

Vivemos constantemente adaptados em um meio ambiente social, e na grande maioria dos casos as pessoas são meras perturbações em nossos planos de sobrevivência e controle.

Toleramos muitas pessoas em nosso trabalho, família, igreja e condomínio apenas para não termos problemas imediatos mas, de modo geral, a grande maioria dos seres humanos que conhecemos são meros espectros, personagens secundários, fantasmas que perambulam em nosso cotidiano e nossas lembranças. 

Aprendemos a respeitar os outros como cidadãos e indivíduos (na melhor das hipóteses), mas não os reconhecemos como pessoas que possam fazer alguma grande diferença em nossas vidas, estejam elas tristes ou alegres.

Aqueles que nem conhecemos, estes então praticamente não existem para nós! Sequer estão vivos. Assistimos todos os dias notícias sobre centenas de mortos por fome, guerra, catástrofe ou descaso de algum governo e tratamos isto como sendo mais um destes absurdos absolutamente aceitáveis.

Mas de algum tempo para cá estamos vendo chegar uma nova onda digital trazendo pelas redes socias uma multidão de novos desconhecidos que passamos a aceitar como amigos após um simples clique.

As redes sociais ampliam nossas possibilidades de relacionamemto com pessoas das mais diversas origens, entretanto seguimos nos limitando a conexões somente com gente que já faz parte do nosso mundo, seja por afinidade ou similaridade.

Desconfiamos dos desconhecidos enquanto não sabemos ao certo quem são e o que querem, e desconfiamos dos conhecidos por sabermos exatamente quem são e o que querem!

Todo o atrito, dificuldade e desafio que as pessoas nos trazem podem ser facilmente excluídos em nossas preferências de rede.

A desconfiança que intimamente mantemos uns dos outros, nos leva a ter um cuidado constante com as informações que chegam até nós.

Confiamos nas enciclopédias, como se elas tivessem sido escritas impessoalmente, e acreditamos na imprensa, como se a imparcialidade fosse possível, mas desconficamos uns dos outros.

E fazemos isto o tempo todo. Lemos as postagens com um olhar avaliativo pensando sempre se vale a pena ou não continuar seguindo aquela pessoa.

Somos faxineiros dedicados de nossas timelines, sempre criteriosos julgando, avaliando e varrendo prá fora as idéias desagradáveis e os comentários que não aceitamos.

Com isso estamos recriando nas redes o que já temos no mundo presencial de sobra: total controle sobre as pessoas com quem nos relacionamos.

A rede é um risco a ser vivido por cada um de nós! Sem esta abertura pessoal, sem esta coragem básica de escutar o que o outro diz a partir do contexto que o outro está vivendo, não pode haver um relacionamento, serão apenas meras interações.

Os iguais se aproximam, guiados por sentimentos de pertencimento e auto-proteção, e aí está o paradoxo, por mais que a rede seja um infinito de possibilidades e transformações, enquanto você se conectar ao seus clones, seguirá sendo sempre apenas o bom e velho você mesmo.

É isto que nos torna sózinhoa em uma multidão e agora, isolados em uma rede, com muitos amigos e seguidores, perambulando em lugares que merecem um checkin, mas que são meros cenários de um mundo que só existe de cada um de nós.

Luiz Algarra

Designer de fluxos de conversação para grupos humanos, com foco em inteligência colaborativa

Consultor em inovação sistêmica, com abordagem em meta-design, cibernética conversacional e aprendizagem informal, propõe e estrutura processos de diálogo para grupos humanos, sejam empresas ou instituições.

Atua em eventos, encontros e palestras como ativador de reflexões para grandes multidões, em temas locais ou globais.

Colabora com o Itaú Unibanco design da rede do Programa de Finanças Sustentáveis.

Participa da ativação da rede do Ciclo de Novas Profissões, um projeto da Fundação Telefônica.

Atua como consultor para inovação no Grupo Bio Ritmo, líder de negócios em fitness no Brasil.

Promove conversações para inovação no Banco Pátria Investimentos.

Concebeu e implantou os processos da inovação de ensino-aprendizagem dos callcenter Vivo de todo o Brasil e ativou a rede de conversações nacional que subsidiou a inovação das políticas de sustentabilidade da Vivo.
Integrou a equipe básica de criação e implantação do projeto da TV Escola Digital Interativa, para o Ministério da Educação na equipe de Cristovam Buarque.

Se faz presente na internet desde 1994, liderando iniciativas pioneiras em educação, inclusão e novos negócios a partir da cultura digital.
Produz, mantém e compartilha conteúdo próprio em blogs e redes sociais como plataforma de co-inspiração e construção de novos conhecimentos.

Cursou Jornalismo na PUC/SP e Certificação em Biologia Cultural com o Prof. Humberto Maturana e Ximena Dávila, da Escuela Matriztica de Santiago.

Especializações
Conversações, Aprendizagem Informal, Biologia Cultural e Redes Sociais

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